Rodolfo Braga Ladeira é médico pela Universidade Federal de Minas Gerais (2004). Fez residência em psiquiatria no Instituto Raul Soares (FHEMIG). Obteve o título de especialista em Psicogeriatria pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). É especialista em Dependência Química pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e mestre em Psiquiatria pela Universidade de São Paulo (USP). Foi preceptor voluntário dos programas de Residência Médica em Psiquiatria do Instituto Raul Soares (FHEMIG) e de Psicogeriatria do HC-UFMG.
Atualmente, supervisiona residentes de psiquiatria (R2) e de psicogeriatria (R4) no ambulatório didático de psicogeriatria do LIM-27, no Instituto de Psiquiatria Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e cursa o Doutorado pelo programa de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Psiquiatria e Psicogeriatria, atuando principalmente nos seguintes temas: Transtornos psiquiátricos no Idoso, transtornos neurocognitivos (p.ex., doença de Alzheimer), transtorno bipolar, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e dependência química. Atende consultório em Belo Horizonte – MG, na região Hospitalar.
O Cérebro não Esquece: 5 Descobertas Surpreendentes para Proteger sua Memória hoje
O Novo Horizonte da Saúde Mental
Para muitos de nós, o passar dos anos traz consigo um medo silencioso: o de perder a essência de quem somos através do declínio cognitivo. Por décadas, a medicina encarou a demência como um destino biológico selado pela genética. No entanto, estamos vivendo uma mudança de paradigma sem precedentes na neurociência aplicada. A “boa notícia” que emerge dos relatórios globais mais recentes, como o da Comissão Lancet de 2024, é transformadora: a demência não é um destino inevitável. Segundo as evidências mais robustas da atualidade, quase metade (45%) dos casos de demência no mundo pode ser prevenida ou atrasada por meio de escolhas que estão, literalmente, em nossas mãos.
1. A Regra dos 45%: Sua Vida está em suas Mãos
O conceito central aqui é o dos “fatores de risco modificáveis”. A ciência agora prova que o estigma de que “a genética é tudo” caiu por terra. Em sua atualização mais recente, a Comissão Lancet expandiu para 14 o número de fatores que influenciam diretamente nossa resiliência cerebral, incluindo dois novos vilões identificados em 2024: o Colesterol LDL elevado e a Perda de Visão não tratada.
Aqui estão os 14 alvos estratégicos para proteger seu cérebro:
Fatores Cardiovasculares e Metabólicos: Hipertensão, diabetes, obesidade (na meia-idade), colesterol LDL elevado e sedentarismo.
Fatores de Estilo de Vida e Ambientais: Baixa escolaridade, tabagismo, consumo excessivo de álcool, isolamento social, poluição do ar e traumatismo craniano (TBI).
Fatores Sensoriais e Mentais: Perda auditiva, perda de visão, depressão e distúrbios do sono.
“Seja ambicioso em relação à prevenção. Ações para diminuir o risco de demência devem começar cedo e continuar ao longo de toda a vida.” — Relatório da Comissão Lancet.
2. O Coração e o Cérebro: Vizinhos Inseparáveis
A máxima do Global Council on Brain Health (GCBH) é clara: “O que é bom para o coração é bom para o cérebro”. Como especialista, preciso enfatizar que o controle da hipertensão (com alvo de 130 mmHg ou menos a partir dos 40 anos) não serve apenas para o fluxo sanguíneo; é a defesa primária contra danos microvasculares cerebrais e lesões na substância branca, que são precursores silenciosos do declínio cognitivo.
Para proteger essas “estradas” cerebrais, identifique os Vilões do Prato:
Gorduras trans: Presentes em frituras e ultraprocessados.
Sódio Oculto: O maior perigo não é o saleiro, mas os pães e produtos de panificação, que são fontes primárias de sódio na dieta ocidental.
Açúcares refinados: Alimentos que inflamam o sistema vascular.
Dica de Especialista: Para reduzir o sal sem perder o prazer de comer, utilize vinagre, limão ou ervas aromáticas para realçar o sabor. Essa pequena troca reduz a carga sobre suas artérias cerebrais imediatamente.
3. A Dieta MIND: O “Blueprint” da Nutrição Cerebral
A Dieta MIND é uma fusão estratégica entre a Mediterrânea e a DASH, desenhada especificamente para nutrir neurônios. O dado mais impactante é que a alta adesão a este padrão alimentar foi associada a uma redução de 17% no risco de demência.
O seu plano de nutrição cerebral (A-List) deve incluir:
Verdes folhosos: 6 ou mais porções por semana.
Berries: Priorize mirtilos e morangos (pelo menos 2 porções por semana), as únicas frutas destacadas pelo MIND por seu poder antioxidante.
Feijões e Leguminosas: 4 ou mais refeições por semana.
Aves (frango/peru): 2 ou mais refeições por semana (sem fritar).
Peixes: Pelo menos uma vez por semana (não frito).
Grãos Integrais: 3 ou mais porções diárias.
Castanhas e Nozes: pequenos lanches de castanha, na maioria dos dias.
Embora os flavonoides do cacau e polifenóis sejam aliados poderosos contra o estresse oxidativo, o GCBH alerta: atenção à moderação calórica. O benefício do nutriente não deve ser anulado pelo ganho de peso.
4. Sentidos em Alerta: O Papel Oculto da Audição e Visão
Talvez a descoberta mais contraintuitiva da neurociência recente seja o impacto dos nossos sentidos. A perda de audição e visão não tratadas aceleram a demência por um mecanismo chamado “Carga Cognitiva” (Cognitive Load). Quando o cérebro precisa gastar uma energia imensa apenas para decifrar um som abafado ou uma imagem turva, sobram menos recursos para a memória e o raciocínio.
O uso de aparelhos auditivos em pessoas com perda de audição pode reduzir o declínio cognitivo em 19%. Cuidar dos sentidos preserva a reserva cognitiva e evita o isolamento social, mantendo o cérebro devidamente estimulado e conectado ao mundo.
5. O Mito do “Tarde Demais” e o Escudo Genético
Um dos maiores mitos que combatemos em consultório é que, após os 50 ou 60 anos, as mudanças não fazem diferença. A ciência de 2024 traz um veredito revolucionário: as mudanças de estilo de vida funcionam independentemente do seu risco genético.
Mesmo que você tenha um histórico familiar, seus hábitos diários atuam como um “escudo” capaz de compensar a predisposição biológica. O cérebro mantém sua plasticidade e capacidade de se beneficiar de novos estímulos, da atividade física e de uma dieta protetora em qualquer idade, mesmo após um diagnóstico de comprometimento leve.
Um Convite à Ação
A prevenção da demência é um projeto de vida focado na “Compressão da Morbidade”: o objetivo não é apenas viver mais, mas garantir que vivamos com clareza mental, comprimindo qualquer período de doença para um curto espaço de tempo no final da vida.
Cada pequena troca — como substituir o pão com manteiga por uma porção de nozes ou temperar sua refeição com ervas em vez de sal — é um depósito em sua conta de saúde mental. A clareza de amanhã é construída com as escolhas de hoje.
Se você soubesse que uma pequena mudança hoje poderia garantir suas memórias de amanhã, por qual hábito você começaria agora?
Infográfico ilustrando os pilares da prevenção da demência: com ajustes na saúde cardiovascular, correção de déficits sensoriais (audição e visão) e adesão à Dieta MIND, é possível prevenir ou retardar até 45% dos casos.
O Brasil está envelhecendo rápido. Segundo o Censo de 2022, tivemos um salto de mais de 57% no número de pessoas com 65 anos ou mais em pouco mais de uma década. Mas a grande pergunta que trago hoje aqui no blog é: estamos preparados para envelhecer com qualidade de vida e amparo adequado?
Na minha rotina de consultório, dedicando-me ao cuidado de pacientes que já passaram dos 50 anos, e também na supervisão de médicos residentes lá no ambulatório de Psicogeriatria do Lim-27 na USP, percebo um desafio diário. Muitas famílias e até mesmo profissionais de saúde ainda confundem os sinais de fragilidade e demência com o famoso (e perigoso) mito do “é normal da idade”.
A fragilidade vai muito além da fraqueza física. Ela é multidimensional: envolve a cognição, o lado emocional, a mobilidade e o contexto sociofamiliar. E quando falamos de fragilidade cognitiva, as demências, como a Doença de Alzheimer, assumem o protagonismo. Entender a evolução clínica dessas condições e os novos biomarcadores disponíveis não é apenas um luxo acadêmico, mas uma necessidade urgente para o planejamento do cuidado.
É exatamente para aprofundar essa discussão que faço questão de divulgar e convidar a todos para o VI Simpósio de Saúde Mental da Pessoa Idosa. O evento é organizado pelo Programa de Extensão em Psiquiatria e Psicologia de Idosos da UFMG (PROEPSI), um grupo de excelência do qual já tive a honra de fazer parte.
O simpósio abordará o tema “Fragilidade, Demência e Políticas Públicas em Perspectiva Integrada à Produção do Conhecimento Científico”. A mensagem central é clara: a pesquisa de ponta, a prática de consultório e as políticas públicas do SUS não podem caminhar separadas. Elas precisam atuar em rede para garantir um cuidado longitudinal e integral ao idoso.
Se você é profissional da saúde, estudante, gestor público ou um familiar que busca entender melhor o processo de envelhecimento e adoecimento, este evento é para você. Grandes nomes nacionais e internacionais da psiquiatria, geriatria e pesquisa estarão reunidos para compartilhar evidências recentes e experiências bem-sucedidas.
A ciência e o cuidado devem caminhar juntos. Espero vocês lá!
A apatia é um sintoma comum na demência, sendo o mais prevalente na doença de Alzheimer. Ela se caracteriza pela perda de interesse e motivação nas atividades cotidianas, incluindo hobbies, relacionamentos sociais e até mesmo cuidados pessoais.
As pessoas com apatia na demência podem apresentar os seguintes sintomas:
Falta de interesse em atividades que antes eram prazerosas
Retração social
Falta de expressão emocional
Falta de iniciativa
Diminuição da participação em atividades da vida diária
Figura 1. Representação de um idoso com apatia. Observe a falta de expressão emocional, a falta de iniciativa e de engajamento em atividades. Fonte:Gerado com IA ∙ 29 de janeiro de 2024 às 8:12 PM
A apatia pode ter um impacto negativo na qualidade de vida do paciente e de seus cuidadores. Ela pode levar à depressão, isolamento social e perda de autonomia.
As causas da apatia na demência ainda não são totalmente conhecidas, mas acredita-se que sejam relacionadas a alterações nas áreas do cérebro responsáveis pela motivação e pela emoção.
A apatia na demência pode ser frequentemente confundida com depressão. Ambos os distúrbios envolvem perda de interesse e motivação, mas existem algumas diferenças importantes entre eles.
A principal diferença entre apatia e depressão é que a apatia não é acompanhada de sentimentos de tristeza, culpa ou desesperança. Além disso, a apatia é geralmente causada por danos a áreas do cérebro responsáveis pela motivação e pela emoção, enquanto a depressão pode ser causada por uma variedade de fatores.
Figura 2. A apatia na demência pode ser frequentemente confundida com depressão. Ambos os distúrbios envolvem perda de interesse e motivação. Fonte: Gerado com IA ∙ 29 de janeiro de 2024 às 8:12 PM
Não existe um tratamento específico para a apatia na demência, mas existem algumas estratégias que podem ajudar a melhorar os sintomas, como:
Manter o paciente ativo e estimulado: Atividades físicas, sociais e cognitivas podem ajudar a manter o interesse e a motivação do paciente.
Estabelecer rotinas e horários: Rotinas e horários regulares podem ajudar o paciente a se sentir mais organizado e menos perdido.
Envolver os cuidadores: Os cuidadores podem ajudar a motivar o paciente e a fornecer apoio emocional.
Figura 3. Gerado com IA ∙ 29 de janeiro de 2024 às 8:18 PM
Aqui estão algumas dicas para ajudar a motivar um paciente com apatia na demência:
Faça com que as atividades sejam simples e fáceis de entender.
Quebre as tarefas grandes em tarefas menores.
Dê ao paciente tempo para se preparar para as atividades.
Faça as atividades em um ambiente agradável e tranquilo.
Elogie o paciente por seus esforços.
É importante lembrar que cada paciente é diferente e o que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. É importante ser paciente e perseverante.
Se você notar que um familiar ou amigo com demência está apresentando sintomas de apatia, é importante procurar ajuda médica. Um médico especialista poderá avaliar o paciente, ajudar a distinguir entre a apatia ou depressão e orientar sobre a abordagem mais adequada.